Curitiba, 01 de junho de 2020.

Texto por M.V. Ma. Esp. Mhayara Reusing

Diversas doenças requerem cuidados hospitalares, e a fisioterapia pode encurtar o período de internamento por evitar o declínio funcional dos pacientes. Animais com problemas cardíacos, renais, respiratórios, infecções e politraumatismos podem ser submetidos a longos períodos de internação. O suporte intensivo deve ser promovido para estabilização clínica até que o animal possa retornar e seguir com cuidados e recomendações para casa. Durante o período de internação, é fundamental que ele seja também acompanhado médicos veterinários da reabilitação hospitalar. Preparamos esse post embasado em comprovações científicas sobre a importância da reabilitação em ambiente hospitalar. Confira!

Quais as consequências do internamento prolongado?

O internamento dos pacientes se faz necessário por diversos motivos: aparelhos respiradores com oxigenoterapia, utilização de sondas uretrais, nasogástricas, esofágicas para viabilizar a alimentação de animais com anorexia, administração de medicamentos por via endovenosa, monitoração de parâmetros hematológicos laboratoriais e acompanhamento constante de parâmetros vitais e pronto atendimento de pacientes críticos. Entretanto, pacientes internados reduzem drasticamente suas atividades em leitos, sejam gaiolas, baias, berços de UTI, e isso traz uma série de consequências que agravam seu o quadro geral. Estudos em humanos mostram que em apenas 7 dias, há redução de 30% da força muscular, com perda adicional de 20% da força restante a cada semana, havendo fraqueza generalizada entre 30 a 60% dos casos de internamentos superiores a 7 dias. Em animais, isso não é diferente. Abaixo, listamos os efeitos negativos do internamento prolongado no organismo, sobretudo na locomoção e recuperação dos pacientes:

  1. Síndrome do imobilismo: definida como a redução da capacidade funcional dos sistemas osteomusculares, tecido conjuntivo e articular, sistema respiratório, metabólico, gastrointestinais e outros. Ou seja, animais internados por períodos superiores a 7 dias tem maior probabilidade de desenvolver essa síndrome.
  2. Perda da força muscular: após apenas 7 dias de internamento, ocorre 30% de perda de força muscular e a fraqueza muscular se agrava progressivamente, perdendo 20% da força residual a cada semana.
  3. Inflamação sistêmica: a imobilização prolongada desencadeia uma série de respostas inflamatórias envolvendo músculos e nervos, podendo culminar com neuropatias periféricas e, consequentemente, dificuldade locomotora.
  4. Atrofia muscular: o desuso dos membros e musculatura paravertebral (paralela às costas) gera declínio nas fibras musculares, agravando o quadro de perda de força e tônus muscular, também dificultando a recuperação das funções locomotoras.
  5. Escaras de decúbito: também conhecidas como feridas ou úlceras de pressão, são lesões de pele causadas pela longa permanência na mesma posição, afetando regiões de maior contato da pele com ossos, que geralmente ficam mais salientes devido a fatores nutricionais e atrofia por desuso. Essa pressão inibe a circulação na região, levando a hipóxia tecidual (falta de oxigênio na pele), e consequentemente, necrose. As escaras de decúbito são de difícil tratamento, podendo levar meses para recuperação completa, além de representarem risco de contaminação por serem portas de entrada para micro-organismos devido à solução da continuidade de pele.
  6. Contraturas musculares: 39% dos seres humanos internados por 2 ou mais semanas apresentam perda na amplitude de movimento articular consequentemente à contraturas musculares (encurtamento tanto de tendões quanto músculos).
  7. Diminuição da capacidade respiratória: o declínio das atividades resulta em perda do volume de inspiração e expiração, diminuição nas trocas gasosas, além do aumento na predisposição da formação de trombos devido à estase venosa.

Quais os benefícios da reabilitação com fisioterapia inserida em ambiente hospitalar?

A fisioterapia visa evitar o declínio funcional consequente a longos períodos de internação. As principais modalidades indicadas para animais internados são: massagem, cinesioterapia (exercícios terapêuticos), eletroestimulação, e em casos mais específicos, podem ser recomendadas magnetoterapia, laserterapia e ultrassom terapêutico. O programa de reabilitação física deve ser realizado por um médico veterinário especializado em fisioterapia (fisiatra) em conjunto com a equipe hospitalar, como enfermeiros, médicos veterinários intensivistas e plantonistas para melhores resultados. Todo o histórico clínico e prontuários devem ser avaliados para elaboração da reabilitação do paciente em terapia intensiva. Dessa forma, considerando-se as necessidades e limitações de cada paciente, diversos são os benefícios do programa de fisioterapia para animais internados:

  1. Melhora da circulação: massagem e mobilização passiva auxiliam no retorno venoso e na produção do líquido sinovial (que nutre as cartilagens articulares). Além disso, as trocas de decúbito ajudam a evitar escaras de pressão. A eletroestimulação também ajuda na liberação de componentes vasoativos para melhorar a circulação local.
  2. Manutenção ou melhora da amplitude de movimento (ADM) articular: mobilizações passivas e alongamentos mantem a capacidade funcional e ADM evitando fibrose e contraturas de tendões e músculos.
  3. Manutenção da massa muscular: exercícios em isometria em bolas e tábuas de equilíbrio ajudam na manutenção da densidade óssea, pela descarga de peso, bem como na demanda sobre respostas musculares, mantendo as fibras ativas e, assim, evitando a atrofia e perda de força. A eletroestimulação funcional muscular induz contração e relaxamento muscular semelhando ao movimento fisiológico, trazendo atividade para as fibras que estão em desuso, ajudando a evitar a atrofia.
  4. Melhora na capacidade respiratória: com a preservação da massa muscular e atividades físicas controladas, mantem-se a demanda de batimentos cardíacos, e oxigenação, ou seja, o corpo continua mantendo neurotransmissores e hormônios responsáveis pela viabilidade do sistema cardio circulatório. Manobras manuais também auxiliam na capacidade inspiratória e expiratória de pacientes em ventilação mecânica ou que recém saíram dos respiradores.
  5. Diminuição da dor e da inflamação: pacientes estáveis, podem se beneficiar dos efeitos analgésicos da laserterapia e dos campos terapêuticos eletromagnéticos. Ambos atuam como anti-inflamatórios físicos, reduzindo a necessidade de medicamentos e seus efeitos colaterais.
  6. Aumento da densidade óssea: a magnetoterapia, laserterapia e ultrassom terapêutico podem, ainda, favorecer a consolidação óssea promovendo calcificação e acelerando a recuperação de fraturas.
  7. Evita a síndrome do imobilismo: a fisiatria visa quebrar o espiral descendente das funções do organismo em pacientes debilitados, promovendo bem estar e qualidade de vida, com  atividades controladas assistidas, exercícios terapêuticos: alongamentos, mobilização passiva e movimentos ativos, ajudando na recuperação dos pacientes internados, bem como redução da inflamação sistêmica.

 

Quando se deve dar início a reabilitação hospitalar?

Todo paciente internado com previsão de prazo para alta superior a 7 dias pode dar início precocemente às sessões de fisioterapia. A instituição precoce da fisioterapia no paciente internado resulta em maiores taxas de recuperação e se assemelha aos melhores cuidados de terapia hospitalar de referência em humanos. Após a alta do paciente, a continuidade do tratamento pode ser dada normalmente, até mesmo pode ser realizada a domicílio. Abaixo listamos alguns casos em que a indicação da fisioterapia é altamente recomendada para evitar consequências negativas do internamento.

Quais pacientes tem indicação para a fisioterapia hospitalar?

  1. Pacientes oncológicos internados para cuidados paliativos
  2. Pacientes ortopédicos ou neurológicos em internamento prolongado
  3. Pacientes renais, cardíacos, hepatopatas, endócrinos, internados para estabilização
  4. Politraumatizados em pós-operatório para analgesia hospitalar

As modalidades fisioterapêuticas favorecem efetivamente o processo de reabilitação. A área vem crescendo a cada dia mais expressivamente em seres humanos, e, na medicina veterinária, devemos seguir as tendências do atendimento de excelência. Novas tecnologias aliadas aos novos conhecimentos técnicos em processo de educação contínua contribuem nos avanços da saúde animal.

Literatura consultada:

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