Créditos da imagem: Elaine Regina Barreto - Clinifel - Curitiba-PR

Texto por M.V. Esp. Gabriela Duarte

A obesidade é uma das grandes adversidades da atualidade, tanto no ser humano como nos animais. Esta é uma doença caracterizada pelo excesso de gordura corporal capaz de afetar negativamente a saúde. Antes de começarmos a ver os tratamentos da obesidade é necessário observar a causa desse excesso de gordura que muitas vezes pode ser prejudicial não apenas por estética, mas também pela questão metabólica e ortopédica, e estar relacionada a diminuição da expectativa e qualidade de vida (GERMAN, 2010).

Gatos possuem a capacidade de regular a sua ingestão de alimento de acordo com sua necessidade energética, no entanto existem condições que podem promover um desequilíbrio deste balanço energético (ALMEIDA, 2016). Essas condições podem ser classificadas como intrínsecas ou extrínsecos, ou seja, gerada pelo próprio organismo do animal devido a sua idade, raça, sexo, genética ou se é originado pela falta de atividade física, hábitos alimentares irregulares e estilo de vida (ALMEIDA, 2016).

Mas então? Quantas calorias ingeridas a mais diariamente é capaz de levar um gato à obesidade?

Um estudo mostrou que a ingestão de apenas 10 calorias a mais por dia durante um ano, pode levar um gato de 4 kg ao ganho de 0,5kg, o que corresponde a 12% do seu peso corporal. Essas 10 calorias a mais correspondem a aproximadamente 10 grãozinhos a mais por dia! Isso pode facilmente acontecer quando a alimentação é a vontade, e principalmente quando há mais de um gato em casa, havendo menos controle da ingestão da quantidade ideal de ração por animal (Michel e Scherk, 2012).

Os felinos são considerados carnívoros estritos, em comparação com os demais animais, possuem algumas especificidades em relação a nutrição, por serem totalmente dependentes da ingestão de carne o que significa, que sua alimentação precisa conter, alta porcentagem de proteína, moderadas quantidades de gordura e mínima quantidade de carboidratos (ELDREDGE, 2008). Algumas rações possuem maior ou menor proporção de carboidratos em relação a proteínas e gorduras; consulte o médico veterinário do seu felino para saber qual a melhor opção para prevenção da obesidade!

Como saber se o seu gato está obeso?

O diagnóstico da obesidade é realizado através da avaliação clínica do peso e do seu escore corporal. A avaliação metabólica também é muito importante para se observar o seu estado de saúde, e se o animal possui alguma outra doença associada ao sobre peso (MENDES E RODRIGUES, 2013).

A avaliação começa com a observação da estrutura do animal e sua pesagem. Após isso é feita a palpação para determinar o porcentual de gordura corpórea em excesso. Este porcentual é determinado através de uma tabela formulada por médicos veterinários especializados que podemos observar abaixo. Exames de sangue também são  indicados em casos em que a dieta e atividades já estejam adequadas, para descartar as doenças metabólicas e assim dar início ao tratamento.

FONTE: HILL’S, 2016.

  • E atenção para as comorbidades associadas à obesidade:
    • Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM 2) (Almeida, 2016);
    • Lipidose Hepática Felina (LHF) (Armstrong, 2014);
    • Doença do Trato Urinário Inferior Felino (DTUIF) (Westropp, 2011);
    • Osteoartrite (OA) (Marshall, 2009);
    • Doenças Dermatológicas (Colliard, 2008; German, 2006);
    • Neoplasias (Grossman, 2010).

Vale a pena o controle do peso do seu felino!!! A saúde do seu gatinho agradece!

A WSAVA (the word small animal veterinary association) desenvolveu diretrizes que podem facilitar de avaliação nutricional. Ela associa o estado fisiológico do animal, sua dieta, o manejo alimentar e o ambiente. Com isso o diagnóstico é realizado com mais exatidão para dai sim darmos início ao tratamento correto.

E como se trata a obesidade em gatos?

O tratamento se baseia no balanceamento da dieta para que haja a redução do peso, na orientação correta ao tutor sobre o manejo dessa dieta, início de atividades que promoveram a queima calórica através da fisioterapia, e a acupuntura também auxilia no equilíbrio metabólico para  colaborar com a perda de peso.

Pode-se estabelecer como meta a redução de 0,5 a 1% do peso total por semana e de 3% a 4% em um mês. Caso não haja sucesso e as recomendações de dieta e exercícios tenham sido rigorosamente seguidas, pode-se optar por reduzir a quantidade de calorias diárias em 5% ou 10%, porém deve haver monitoração rígida e regular para que não haja perda de massa magra durante esse processo (MENDES E RODRIGUES, 2013). Nos casos em que as recomendações sejam rigorosamente seguidas, não havendo resposta ao tratamento, é muito importante investigar causas metabólicas (endócrinas) da obesidade! E então tratar a causa base é fundamental para o sucesso no tratamento!

 A FISIOTERAPIA NA PERDA DE PESO

A fisioterapia não tem papel somente no aumento do gasto de energia através de exercícios: ela vai muito ais além! Tendo em vista que a obesidade se trata de um estado inflamatório sistêmico, antes de pensarmos em um programa de atividades físicas, é necessário desinflamar o paciente, através da magnetoterapia, laserterapia e acupuntura. Assim, promovemos paralelamente alívio da dor, e melhora na disposição do animal, muitas vezes impossibilitado de se exercitar. Dessa forma, quebramos o ciclo vicioso de dor levando ao sedentarismo, que por sua vez gera ganho de peso e culina com piora nas dores articulares!

Só devemos iniciar atividades concomitantemente ao alívio da dor e dieta adequada! O controle e tratamento da obesidade requer um programa de exercícios físicos adequados. Para estabelecer o melhor protocolo, avalia-se quais os estímulos mais adequados para cada paciente e sua frequência também.

Hidroterapia

A fisiatria tem utilizado cada vez mais o exercício na água por proporcionar ao animal obeso duas propriedades fundamenteis para sua condição física: Flutuabilidade – o paciente se torna mais leve fazendo com que sua sobrecarga articular diminua, e a resistência – aumenta a intensidade do exercício resultado em uma perda calórica maior (APPEL E CARAMICO, 2018). Lembrando que a hidroterapia por si só não deve ser um método único para o tratamento, mas sim, deve ser associada a outras atividades diárias e uma alimentação adequada!

A hidroesteira consiste em uma esteira submersa na água, com volume da água, velocidade, temperatura e inclinação calculadas para promover a redução da sobrecarga articular. A hidroesteira é considerada a melhor ferramenta para o tratamento da obesidade comparada coma natação livre, pois permite maior controle do exercício (APPEL E CARAMICO, 2018).

Rampas e escadas

Subir e descer escadas são partes do exercício que devemos ter cautela pelo impacto que pode causar nas articulações. Inicialmente com rampas suaves e com controle de velocidade durante todo tempo, começa em velocidade baixa e vai gradativamente aumentando conforme ocorre melhora do condicionamento físico. As escadas devem ser realizadas leves com poucos degraus e poucas repetições e o ideal que não sejam muito íngremes para não sobrecarregar as demais articulações de forma errônea (APPEL E CARAMICO, 2018).

Caminhadas

As caminhas são formas seguras de tratamento por ser um exercício aeróbico de baixo impacto e de fácil aplicação ao programa de tratamento. As caminhadas devem ser feitas de forma controlada onde velocidade e distância a ser percorrida são analisadas e a coleira utilizada seja confortável e segura para promover ao animal uma atividade sem estresse e com grande aproveitamento (APPEL E CARAMICO, 2018)

Cinesioterapia

A cinesioterapia são exercícios terapêuticos assistidos, estes podem ou não possuir impacto nas articulações, por isso, sua realização deve ser acompanhada exclusivamente por um fisiatra. A cinesioterapia consiste no exercício com bolas, discos de propriocepção, tábuas de equilíbrio, cavaletes, cones e vários outros obstáculos que podem ser adequados conforme a condição de cada paciente (SARTORI E SAMUEL, 2018)

CONCLUSÃO

A obesidade em felinos está se tornando uma realidade comum e necessita da atenção de médicos veterinários por ser uma doença grave e de difícil tratamento, além de estar relacionada a outras doenças secundárias graves.

Os gatos que já se encontram com sobrepeso ou obesos necessitam de tratamento sério e contínuo. Porém não há resultados satisfatórios sem persistência e monitoração adequada, e muito comprometimento! Somado a isso, o tratamento conduzido de forma incorreta pode trazer problemas metabólicos e articulares graves, ou seja, o conhecimento sobre os aspectos gerais e particularidades da obesidade em felinos é de suma importância.

Editado por M.V. Ma. Esp. Mhayara Reusing

REFERENCIAS

ALMEIDA, J.F.T. Obesidade felina: condição corporal e a percepção dos proprietários, Lisboa, 2016.

APPEL, R.LR, CARAMICO, M. Controle da obesidade com exercícios. In: LOPES, R.S.; DINIZ, R Fisiatria em pequenos animais. I. ed. São Paulo: Editora Inteligente, 2018. p. 437-445. ISBN: 978-85-85315-00-9.

JUNIOR, M.A.F.; PASSOS, C,B ;GÁLEAS, M.A.V ;SECCHIN, M.C ; APTEKMANN, K.P. Prevalência e fatores de risco da obesidade felina em Alegre-ES, Brasil. Semina: Ciências Agrárias, Londrina, v. 34, n. 4, p. 1801-1806, jul./ago. 2013.

MENDES, F.F.; RODRIGUES, D, F.; PRADO, Y.C.L.; ARAUJO, E.G. Obesidade em felinos. Enciclopédia Biosfera, 2013.

MICHEL, Kathryn; SCHERK, Margie. From problem to success: feline weight loss programs that work. Journal of feline medicine and surgery, v. 14, n. 5, p. 327-336, 2012.

LEMOS, Tássila da Silva. Particularidades nutricionais do paciente felino geriátrico: revisão de literatura. 2018. 65 f., il. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Medicina Veterinária) —Universidade de Brasília, Brasília, 2018.

SARTORI, M.: SAMUEL, M. M. G. Exercícios terapêuticos. In: LOPES, R. S.: DINIZ, R. Fisiatria em pequenos animais. I. ed. São Paulo: Editora Inteligente, 2018. p. 148-155. ISBN: 978-85-85315-00-9.