Curitiba, 18 de maio de 2020.

Texto por M.V. Esp. Flávia do Prado

Caros leitores,

Sabemos que ter um filhote em casa é uma delícia. Conhecer sua personalidade, observar suas travessuras e ensinar truques novos torna a casa uma festa. Mas além dos cuidados rotineiros (vacinação, vermifugação, nutrição…) há alguns problemas locomotores que podem ser observados em animais jovens se estivermos atentos. Sabendo a importância de detectar algumas doenças o mais cedo possível, elaboramos esse texto sobre doenças ortopédicas as quais todo tutor deveria ter conhecimento ao adquirir um filhote.

A  maioria das doenças ortopédicas do desenvolvimento possuem caráter multifatorial, ou seja, podem ter influência genética, nutricional e ambiental. Quando citado fator nutricional, faz-se referência principalmente ao excesso de alimento e desbalanço de nutrientes. Quando são citados fatores ambientais, faz-se referência ao ambiente no qual o cão está inserido. E além dos cuidados para evitar acidentes, alguns itens presentes em todas as residências como escadas e piso liso, deveriam ser adaptados ou evitados para o adequado desenvolvimento musculoesquelético do animal. Se você ainda não leu o texto publicado anteriormente nesse blog sobre o mal das escadas, recomenda-se a leitura (clique aqui).

As doenças ortopédicas do desenvolvimento mais frequentes são: displasia coxofemoral, displasia de cotovelo, luxação de patela, osteocondrose (OCD), necrose asséptica da cabeça do femur e panosteíte.

Os cães de grande porte são mais acometidos pela displasia coxofemoral, displasia de cotovelo, osteocondrose e panosteíte. E as principais raças a manifestar essas afecções são labrador, golden retriever, pastor alemão e rottweiler. Já a luxação patelar e a necrose asséptica da cabeça do femur são mais frequentes em cães de pequeno porte, como os cães da raça yorkshire, poddle toy e lulu da pomerânia (LaFond et al. 2002). Agora como é possível a detecção precoce? Para responder a essa pergunta é necessário explorar alguns pontos de cada uma dessas alterações.

DISPLASIA COXOFEMORAL

A Displasia Coxofemoral é uma deformidade que ocorre na articulação coxofemoral, mais conhecida como articulação do quadril. Nesta articulação deve haver um encaixe perfeito da cabeça do fêmur que é uma superfície circular com o acetábulo, que é uma superfície côncava no osso coxal. Quando o animal apresenta esta doença, ele nasce com alterações ósseas que impedem o correto encaixe do fêmur com o coxal e ocorra dor durante o caminhar (Figura 1) . Os primeiros sinais geralmente aparecem entre 5 e 10 meses de idade. É possível observar o animal mancar de modo intermitente, apresentar dificuldade em levantar e intolerância ao exercício. Muitas vezes a claudicação ou manqueira, pode passar despercebida por se manifestar como se o animal estivesse “rebolando” ou como um “coelho pulando”. Deste modo, alguns tutores acreditam que é apenas uma característica do cão e não um sinal de dor ou dificuldade locomotora.

Figura 1- Articulação coxofemoral sadia à esquerda e doente à direita. Fonte: VCA Animal Hospitals

DISPLASIA DE COTOVELO

Displasia de cotovelo é um termo utilizado para um grupo de doenças que ocorre na articulação úmero-radio-ulnar e desencadeia dor e claudicação nos membros torácicos (Figura 2). As alterações que integram esse grupo são:

  • osteocondrose em cotovelo
  • fragmentação do processo coronoide
  • doença do compartimento medial
  • não união do processo anconêo

Figura 2- Ilustração das estruturas ósseas integrantes da articulação do cotovelo. Fonte: PetMDmobile.

A ossificação incompleta do côndilo umeral também pode causar os mesmos sinais clínicos em cães jovens. Os sinais são semelhantes ao da displasia coxofemoral, dor ao caminhar, intolerância ao exercício, dificuldade em levantar principalmente após períodos de repouso, só que ocorrem nos membros torácicos.

OSTEOCONDROSE

Durante o desenvolvimento ósseo, há partes do osso que possuem uma formação cartilaginosa e aos poucos recebe depósitos minerais e é substituída por tecido ósseo rígido. Quando ocorrem falhas neste processo, chamado ossificação endocondral, há partes cartilaginosas que permanecem e formam “flaps” desencadeando dor e inflamação na articulação. As articulações mais acometidas são cotovelos, ombros, joelhos e tarsos. Os primeiros sinais de claudicação podem ser observados entre 5 e 7 meses de idade.

Figura 3- Ilustração da alteração na estrutura óssea decorrente da osteocondrose e evolução. Fonte: Petbyser.

PANOSTEÍTE

A Panosteíte consiste em uma nova e anômala formação óssea nas estruturas dos ossos longos denominadas endósteo e periósteo, invadindo a cavidade medular, alterando a densidade óssea normal e causando muita dor. A doença pode iniciar em um osso e seguir acometendo outros. O animal irá claudicar do membro afetado, e pelo fato da panosteíte poder afetar mais de um local, a claudicação pode mudar também. A maioria dos cães acometidos possui até 2 anos de idade, é mais observada em machos e observa-se dor a palpação do osso acometido. A exceção das demais enfermidades, está é auto-limitante ou seja, realiza-se o controle da dor e recomenda-se restrição das atividades, mas a recuperação ocorre de modo espontâneo.

LUXAÇÃO PATELAR

A luxação patelar é definida como o deslocamento medial ou lateral da patela do sulco troclear (Figura 4). É uma das alterações possíveis de observar em cães jovens, pois, entre as causas estão deformidades congênitas na porção distal do fêmur e tíbia e o arrasamento do sulco troclear que influenciam no direcionamento do movimento patelar. A luxação patelar pode ser observada em diferentes graus e em qualquer idade. Observa-se que há alteração na forma como o animal caminha, e quando a patela está deslocada o membro pélvico pode permanecer flexionado por um tempo, como se estivesse “travado” e depois retorna a caminhar normal. Muitas vezes nota-se como se o animal desse “chutinhos para trás” ao recolocar a patela no lugar. A promoção do atrito ósseo e alteração na biomecânica do passo leva ao desgaste articular, inflamação, sobrecarga de estruturas adjacentes e dor.

Figura 4- Articulação do joelho saudável a esquerda e com deslocamento medial da patela a direita. Fonte: PetMDmobile.

NECROSE ASSÉPTICA DA CABEÇA DO FÊMUR

A necrose asséptica da cabeça do fêmur é caracterizada pela interrupção do aporte sanguíneo, necrose e por fim colapso da cabeça femoral. Essa enfermidade também recebe o nome de Doença de Legg Perthes e osteocondrite dissecante da cabeça femoral. Ela ocasiona claudicação grave de membros pélvicos em cães de pequeno porte entre 3 e 13 meses e exige correção cirúrgica.

 

Quando identificadas e tratadas precocemente, as enfermidades abordadas tem maiores chances de serem solucionadas. Algumas delas irão requerer procedimentos cirúrgicos específicos e é consenso que todas se beneficiarão do tratamento fisioterápico. A maioria das doenças ortopédicas do desenvolvimento tendem a evoluir para doença articular degenerativa e lesões secundárias. Negligenciar enfermidades ortopédicas nesta fase pode acarretar em uma vida inteira de dor e bem-estar comprometidos.  Concluindo, os filhotes requerem atenção redobrada e suspeitando de qualquer anormalidade locomotora procure um ortopedista e fisioterapeuta de confiança.

Para todas essas afecções, fisioterapia e acupuntura são indicadas e altamente benéficas para qualidade de vida dos pets! Dúvidas? Entre em contato conosco! (41) 99876-1486.

Referências bibliográficas:

Fossum, T.W. Small Animal Surgery. 2013. Missouri: Elsevier, 4 ed.

LaFond, E.; Breuer, G.J, Austin, C. C. Breed Susceptibility for Developmental Orthopedic Diseases in Dogs. Journal of the American Animal Hospital Association, Vol. 38, September/October 2002.