Meu cachorro chora muito a noite: O que fazer?

Texto por M.V. Esp. Adriana Neves

Edição: M.V. Msc. Esp. Mhayara Reusing

 

Chorar é uma materialização de sentimento de qualquer espécie. Serve para demostrar alguns sentimentos como alegria, dor, euforia, alerta, medo.

Para entender os cães, já que eles não se expressam através da fala, é preciso compreender algumas questões relacionadas a vocalização nessa espécie.

Inicialmente, vamos mencionar os adoráveis filhotes, que nos primeiros dias de adaptação ao ambiente novo, podem estranhar e chorar quando estiver sozinho. É uma fase que exige paciência, pois caso atendamos aos “pedidos” e nos colocarmos à disposição quando chore, podemos erroneamente desencadear um hábito comportamental indesejado.

Uma outra causa que devemos estar atentos é que, o cachorro chorando a noite pode ser sinal de dor. É importante diferenciar se realmente é dor ou apenas um dispositivo manhoso dele e para isso é necessário o auxílio de um médico veterinário para diagnosticar o problema e indicar o melhor tratamento.

O vínculo afetivo entre humanos e cães vem se consolidando com o decorrer dos anos, o que também tem ocasionado alterações comportamentais, como a Síndrome da Ansiedade de Separação, que vem apresentando um índice crescente de casos na clínica médica de pequenos animais.

A Síndrome da Ansiedade de Separação (SAS) caracteriza-se por um conjunto de comportamentos exibidos quando os animais são distanciados fisicamente da sua figura de apego, como seu tutor, sendo um deles a vocalização.

Alguns cães podem apresentar sinais de SAS mesmo quando não estão sozinhos, devido ao fato deste se vincular apenas com um membro da família e quando este membro se ausenta por um determinado tempo, o cão começa a manifestar sinais clínicos de ansiedade. (MCGREEVY; MASTERS, 2008; SOARES; TELHADO; PAIXÃO, 2009; TEIXEIRA, 2009; PALESTRINI et al., 2010).

Essa ansiedade por separação gera nestes cães estados emotivos problemáticos, tais como: medo, angústia e agitação, ocasionando comportamentos destrutivos, vocalização excessiva, eliminação de fezes e urina em locais inapropriados, fuga, depressão, falta de apetite, estresse e agressividade. A ansiedade por separação resume-se em um estado de angústia do animal quando separado dos membros da família. A separação prematura da mãe também pode ser um dos fatores que levam a essa ansiedade por separação (BEAVER, 2001).

Fatores predisponentes:

Hipervinculação – favorecer a ocorrência da hipervinculação, como um contato exagerado e constante do filhote com os donos, não permitindo que este desenvolva sua independência (APPLEBY; PLUIJMAKERS, 2003).

Os sinais descritos para descrever a hipervinculação envolvem a colocação do tutor como centro de todas as atividades que o cão realiza. É comum que o cão o siga por todos os cômodos da casa, inclusive banheiro, queira dormir sempre próximo, manter contato físico constante e buscar atenção o tempo todo. (APPLEBY; PLUIJMAKERS, 2003).

Traumas – Eventos traumáticos na vida de um cão jovem podem aumentar a probabilidade do desenvolvimento de ansiedade de separação. Estes eventos incluem a separação precoce da mãe, privação prematura de laços com a ninhada (filhote de cães mantidos em lojas ou abrigos para animais), uma mudança súbita de ambiente (casa nova, ficar em um canil), uma cirurgia seguida de atenção requerida em pós-cirúrgico, uma mudança no estilo de vida do proprietário, resultando em um súbito término no contato constante com o animal, uma ausência de longo prazo ou permanente de um membro da família (divórcio, morte, crianças que crescem e deixam a casa, volta para a escola ou trabalho, férias que terminam) ou a adição de um novo membro na família (bebê recém-nascido, novo relacionamento social ou novo animal de estimação).

Os principais sinais clínicos da doença em cães se caracterizam por: vocalização excessiva, eliminação inapropriada (defecação ou micção) (NOVAIS et al., 2010), salivação, tentativas de fuga e comportamentos destrutivos ou de realocação de objetos, sendo que todos esses comportamentos se expressam quando o dono está fora de casa ou inacessível ao animal. (HORWITZ; NEILSON, 2008).

Vocalização excessiva-  pode ocorrer vocalização ansiosa excessiva se o proprietário está em casa e o acesso do animal a ele é bloqueado. A vocalização pode variar entre choro, ganidos, uivos e latidos, tipicamente com um tom um pouco mais agudo que o de outros latidos (DIAS et al., 2013).

Outras causas de vocalização excessiva devem ser descartadas e incluem desconforto físico, latidos de alarme, resposta predatória a presas vistas através da janela, distúrbio compulsivo, agressão territorial, resposta social ao ouvir outros cães, disfunção cognitiva e outros distúrbios relacionados à ansiedade (LANDSBERG; HUNTHAUSEN; ACKERMAN, 2005).

O diagnóstico é baseado na observação do comportamento, histórico detalhado, incluindo informações acerca do desenvolvimento do problema e descrição da situação na qual o comportamento surgiu inicialmente (OVERALL, 1992).

Tratamento

Alguns florais podem ajudar no tratamento da Síndrome de Ansiedade por separação.

Síndrome da Disfunção Cognitiva

A Síndrome da Disfunção Cognitiva (SDC), pode também ser um dos motivos pelos quais seu animal chora ou vocaliza.

Reconhecida pelo declínio cognitivo progressivo devido a degeneração patológica do cérebro, A SDC é uma doença neurodegenerativa que acomete animais idosos e se caracteriza pela alteração de comportamento.

Além da responsabilidade do tutor, o médico veterinário deve ser proativo nas estratégias adotadas durante a anamnese, visto que as alterações de comportamento podem ser sutis.

Sinais: Alteração da rotina de sono (trocando o dia pela noite); xixi e cocô em locais fora do comum; diminuição da orientação, pet perdido pela casa; mudança de comportamento com o tutor, esquecimento de comandos aprendidos; vocalização e ansiedade por separação. (Torres,B.B.J)

O diagnóstico definitivo apenas com exame neuropatológico post mortem do cérebro. Entretanto o exame presuntivo pode ser realizado com base na anamnese, exame neurológico, exames complementares, por exclusão de outras doenças (Bagley 1997, Svicero et.al.,2017).

O Tratamento enriquecimento ambiental, utilização de medicamento, dietas suplementadas e mudança no manejo dos animais (Milgram et. Al.,2005, Landesberg et.al., 2012).

A Medicina veterinária integrativa tem sido utilizadas para o tratamento de doenças neurológicas e tem demonstrado resultados bastante satisfatórios, estas representam juntamente com as doenças musculoesqueléticas, 70% de casos encaminhados para acupuntura. Já se sabe que a aplicação da acupuntura, possui ações em estruturas cerebrais como o córtex (Scognamillo – Szabó e Bechara, 2010; Colazo,2012).

O Choro ou vocalização pode ser causado também por um desconforto físico (dor).

Conclusão

É importante entender as afecções que podem causar choro ou vocalização nos cães para diferenciar de uma situação de dor para que assim  seja instituído o melhor tratamento para isso é necessário a avaliação de um médico veterinário.

Referências:

APPLEBY, D.; PLUIJMAKERS, J. Separation anxiety in dogs: the function of homeostasisin its development and treatment. The Veterinary Clinics of North America: Small AnimalPractice, Philadelphia, v. 33, n. 2, p. 321-344, Mar. 2003.

Bagley RS. Common neurologic diseases of older animals. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 1997; 27(6):1451-86.

BEAVER, B. V. Comportamento canino: um guia para veterinários. São Paulo: Roca, 2001.Bruna Carvalho da Silva 1 , Beatriz Gneiding 2*, Joelma Lucioli 1, Jéssica Sara Tesser 1, José Eduardo Basilio de Oliveira Gneiding 1,2 Collazo E. Fundamentos actuales de la terapia acupuntural. Rev Soc Esp Dolor. 2012;19(6):325-31.

DIAS, M. B. M. C. et al. Ansiedade de separação em cães: revisão. Medicina Veterinária, Dois Irmãos, v. 7, n. 3, p. 39-46, 2013.

HORWITZ, D. F.; NEILSON, J. C. Ansiedade de separação: caninos e felinos. Comportamento canino e felino. Porto Alegre: Artmed, 2018.

Landsberg GM, Nichol J, Araujo JA. Cognitive dysfunction syndrome. a disease of canine and feline brain aging. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2012;42(4):749-68.

LANDSBERG, G.; HUNTHAUSEN, W.; ACKERMAN, L. Problemas comportamentais do cão e do gato. 2. ed. São Paulo: Roca, 2005. cap. 11, p. 217-241.

MCCRAVE, E. A. Diagnostic criteria for separation anxiety in the dog: advances incompanion animal behavior. The Veterinary Clinics of North America: Small AnimalPractice, Philadelphia, v. 21, n. 2, p. 247-255, Mar. 1991.

Milgram NW, Head E, Zicker SC, Ikeda-Douglas CJ, Murphey H, Muggenburg B, et al. Learning ability in aged beagle dogs is preserved by behavioral enrichment and dietary fortification: a two-year longitudinal study. Neurobiol Aging. 2005;26(1):77-90.

NOVAIS, A. A. et al. Síndrome da ansiedade de separação (SAS) em cães atendidos no Hospital Veterinário da Unicastelo, Fernandópolis, SP. Ciência Animal Brasileira, Fernandópolis, v.11. n.1. p. 205-211, abr. 2010.

Revista Acadêmica ciência Animal- ISSN 2596-2868 v.16, 2018.

Scognamillo-Szabó MVR, Bechara GH. Acupuntura: histórico, bases teóricas e sua aplicação em Medicina Veterinária. Cienc Rural. 2010;40 (2):491-500.

SOARES, G. M.; TELHADO, J.; PAIXÃO, R. L. Avaliação da percepção de proprietários decães residentes em apartamentos no município de Niterói-RJ sobre os sinais da síndrome deansiedade de separação em animais. Archives of Veterinary Science, Niterói, v. 17, n. 2, p. 10-17, July, 2012.

Svicero DJ, Heckler MCT, Amorim RM. Prevalence of behavioral changes in senile dogs. Cienc Rural. 2017;47(2): e20151645.

TEIXEIRA, E. P. Desvios comportamentais nas espécies canina e felina: panorama actuale discussão de casos clínicos. 2009. 100 f. Dissertação (Mestrado em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais), Universidade técnica de Lisboa, Lisboa, 2009.

Torres, Bruno Beneti Junta – Síndrome da disfunção cognitiva – Revista Nosso Clínico ISSN1808-7191 mar/abr 2018.

Trabalho de conclusão de curso – Fernanda Calessi Rossi – Síndrome da Ansiedade da separação em cães – 2018