Curitiba, 20 de julho de 2020.

Quais exames para diagnóstico de lesões locomotoras estão disponíveis na medicina veterinária?

Texto por M. V. Ma. Esp. Mhayara Reusing

Quer saber se existem exames que podem detectar o que está havendo com seu animalzinho que possui dificuldades locomotoras? Elaboramos esse texto com os principais exames disponíveis na rotina da medicina veterinária, suas vantagens e desvantagens em relação ao diagnóstico de lesões locomotoras. Mas ressaltamos desde já que a solicitação deve ser feita por médico veterinário após avaliação física do paciente (exame ortopédico e neurológico).

A medicina veterinária tem evoluído à semelhança da segmentação em especialidades da medicina humana, e assim, mais recursos diagnósticos e terapêuticos tem sido oferecidos.

O alinhamento do diagnóstico preciso com a terapêutica adequada reflete diretamente na melhora quantitativa e qualitativa dos tratamentos oferecidos.

Quais exames de imagem podem ser solicitados pelo médico veterinário se meu cãozinho estão mancando, perdeu o movimento dos membros ou está com dificuldades para se locomover?

Radiografia: geralmente deve ser realizada com sedação para melhor posicionar o paciente. Esse exame revela com destaque as estruturas ósseas. Sempre indicado em casos de suspeita de fraturas, infeções ósseas (osteomielite), tumores ósseos (ex osteossarcoma), luxações (deslocamentos articulares), discoespondilite. Não possui alta correlação com locais de compressão por hérnia de disco (inferior a 30% de acurácia para deteção de hérnia de disco pela radiografia).

Fonte: Sande, 1992

Mielografia: é a técnica que foi muito utilizada quando somente a radiografia estava disponível. Trata-se da injeção de contraste através da punção da região lombossacra, seguida de radiografia. Melhora contornos do espaço subaracnóideo, favorecendo a observação do contorno medular, indiretamente apontando o provável local da lesão. Sua limitação está em ainda ser bidimensional, e por edemas alterarem a precisão do local da compressão e por não detectar lesões intramedulares pequenas ou sem aumento do volume da medula, como embolia fibrocartilaginosa (de origem vascular). Sempre realizada com anestesia geral.

Fonte: Sande, 1992. Observar as setas indicando o contorno da medula, indicando o local de compressão da medula através da mielografia.

Ultrassonografia articular/muscular: o ultrassom pode ser realizado com o animal acordado, por ser uma técnica não invasiva e indolor é usualmente bem tolerada. Pode diagnosticar rupturas tendíneas ou ligamentares totais ou parciais, estruturas também não visíveis nas radiografias. Assim como os demais exames, deve ser considerado em conjunto com o histórico e sinais clínicos, podendo haver a necessidade de complementação com outros exames para exclusão das demais suspeitas.

Fonte: arquivo pessoal (Parceria VetScan). Ultrassonografia para mensuração de diâmetro muscular e densidade das fibras musculares (avaliação e acompanhamento de contraturas).

Tomografia computadorizada: sempre realizada com anestesia geral. Sua principal vantagem em relação ao raio X seria a imagem tridimensional. É possível a reconstrução 3D das imagens obtidas (fatias em cortes transverais, possibilitando a visualização das estruturas internamente). Na ausência de ressonância magnética, pode ser realizada a mielotomografia (injeção de contraste, seguida do exame de tomografia), que tem alta acurácia para detecção de lesões compressivas na medula, por exemplo. Diversos estudos demonstraram a mielotomografia tendo a mesma acurácia que a ressonância magnética.

  

Fonte: Borges, 2014

Ressonância magnética: sim, esse exame também é realizado em animais, e também sempre precisa ser sob anestesia geral. A diferente densidade dos tecidos promove a formação de uma imagem detalhada, em que é possível visualizar o parênquima medular e cerebral. Estudos demonstraram que a ressonância magnética pode indicar fatores prognósticos, ou seja, a extensão da lesão primária é negativamente relacionada às chances de recuperação completa da locomoção em casos graves. O padrão da imagem pode modificar com o passar do tempo, mesmo que seja uma lesão irreversível, devendo ser indicada o mais cedo possível para poder aumentar a sensibilidade diagnóstica.

Fonte: Ito et al, 2005. Observar a hérnia de disco entre T13-L11 e o detalhamento da imagem da RM.

Artroscopia: realizada com o animal sob anestesia geral, promove a visualização interna articular, observando-se estruturas que não aparecem no raio X, como a cartilagem, a membrana sinovial, ligamentos. Sua principal vantagem é que ela pode servir tanto como diagnóstico, quanto correção terapêutica, para remoção de corpos estranhos, flaps de cartilagem (ex: osteocondrite dissecante), lesões de menisco (tratamento por meniscectomia parcial) através dos portais inseridos.

Fonte: Wagner, et al 2007. Articulação radio0umero-ulnar (cotovelo de cão) nos exames de: A. Artroscopia. B. Radiografia. C. Tomografia computadorizada. Observar que a artroscopia permite a visualização da superfície articular, enquanto a tomografia e a radiografia delimitam bem as estruturas ósseas.

Literatura consultada:

BORGES-DOS-SANTOS, Roberto R. et al. Diagnosis of neurologic compression of the spinal cord of dogs with use of Helical Computed Tomography (CT). Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 34, n. 6, p. 569-575, 2014.

ITO, Daisuke et al. Prognostic value of magnetic resonance imaging in dogs with paraplegia caused by thoracolumbar intervertebral disk extrusion: 77 cases (2000–2003). Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 227, n. 9, p. 1454-1460, 2005.

LEVINE, J. M. et al. Magnetic resonance imaging in dogs with neurologic impairment due to acute thoracic and lumbar intervertebral disk herniation. Journal of veterinary internal medicine, v. 23, n. 6, p. 1220-1226, 2009.

ROBERTSON, I. A. N.; THRALL, Donald E. Imaging dogs with suspected disc herniation: pros and cons of myelography, computed tomography, and magnetic resonance. Veterinary radiology & ultrasound, v. 52, p. S81-S84, 2011.

WAGNER, Kahrma et al. Radiographic, computed tomographic, and arthroscopic evaluation of experimental radio‐ulnar incongruence in the dog. Veterinary Surgery, v. 36, n. 7, p. 691-698, 2007.