Curitiba, 20 de julho de 2020.

Você sabe o que é displasia coxofemoral e quais os problemas ela pode causar ao seu animal?

Texto por M.V. Esp. Gabriela Cupka

Tão comum em cães e também em algumas raças de gatos, a displasia coxofemoral pode causar sérias consequências à locomoção dos animais. Elencamos as principais informações sobre como prevenir a piora do quadro, e promover ais qualidade de vida aos pets! Confira!

O que é a Displasia coxofemoral?

A displasia coxofemoral (DCF) é uma doença ocasionada pela má formação e degeneração da cabeça e colo femoral, e o acetábulo (região do ‘bacia” onde o fêmur se encaixa). Com caráter hereditário, pode ser observada no animal também pelos fatores nutricionais, biomecânicos e de meio ambiente (ALVEZ, 2010).

O animal pode começar a desenvolver essa complicação ainda quando jovem. Normalmente surge entre quatro meses e um ano de idade e afeta cães de qualquer porte, mas é mais comum nas raças grandes e gigantes, tais como o Pastor alemão, Rottweiler, Husky Siberiano, Labrador, Dogue Alemão, e outros (AGOSTINHO e DUARTE 2010).

Sinais Clínicos

Alguns sinais podem ajudar o tutor a perceber se há algo de errado, por exemplo, passos mais curtos, dificuldade ao levantar-se, mobilidade reduzida, intolerância à corrida, rejeição à brincadeiras usuais e quaisquer tipos de exercícios. Pode-se observar também que aos poucos ele começa a jogar todo peso nos membros anteriores e sentir muita dor no quadril (ROCHA; SILVA; BENEDETTE; SANTOS; COSTA 2008).

Outros sintomas são (TRAMONTIM, 2018):

  • Poupar membros traseiros
  • Dificuldade ou relutância em saltar, pular, correr ou subir escadas
  • Perda da massa muscular da coxa
  • Rigidez dos membros
  • Sentar-se lado
  • Mancar
  • Perda ou alteração de mobilidade
  • Arrastar-se para andar
  • Estalos ao andar

Diagnóstico

O diagnóstico é baseado no histórico passado pelo responsável, nos sinais clínicos, no modo de andar do animal e nos resultados dos exames ortopédicos. Para termos uma confirmação definitiva é necessária a realização de exame radiográfico da articulação coxofemoral, que deve ser feito sob sedação, em posicionamento ventro-dorsal, seus membros pélvicos estendidos e de forma paralela. (FROES; GARCIA; SCHMIDLIM; PARCHEN; SOUZA 2009)

A alteração inicial é observada a partir dos 6-9 meses de idade, contudo cerca de 80% dos cães displásicos só demonstrem evidências na radiografia simples aos 12 meses e alguns somente aos 24 meses. Com isso, a idade mais recomendada para o diagnóstico é aos 18 meses (AGOSTINHO e DUARTE 2010). Para diagnóstico precoce, faz-se necessária a técnica por distração de PennHip.

A displasia é classificada em cinco graus:

  • grau I: as cabeças do fêmur e os acetábulos se encaixam em um ângulo de até 105° (ângulo de Norberg); o transtorno é praticamente indolor e não prejudica a locomoção dos cães;
  • grau II: os encaixes são moderadamente incongruentes; os cães podem apresentar desconforto nas corridas e depois de um longo período de descanso;
  • grau III: é uma displasia coxofemoral considerada leve (com encaixe de 100°), mas pode prejudicar o trote e o sono dos cães;
  • grau IV: classificada como moderada (encaixe de 95°). Os cães começam a demandar cuidados especiais, como a cobertura de pisos frios e escorregadios, sempre prejudiciais em função dos riscos de lesões e traumas;
  • grau V: o ângulo de encaixe é inferior a 90°. Cães nesta condição podem se recusar ao movimento e sofrer com luxações e fraturas. (FROES; GARCIA; SCHMIDLIM; PARCHEN; SOUZA 2009)

Tratamento

A displasia coxofemoral não possui cura, os tratamentos visam a qualidade de vida através da diminuição da dor e redução dos sinais clínicos. A diminuição do peso é indicada para diminuir o atrito sobre as articulações através da fisioterapia e acupuntura, com efeito de alívio e prevenção dos processos inflamatórios. Em alguns casos, em crises agudas, medicamentos como analgésicos, anti-inflamatórios devem ser utilizados para alívio da dor. Os condroprotetores podem ser utilizados na intenção de prevenir desgaste e proteger a cartilagem, sendo os mais comumente utilizados os condromoduladores, dos quais a função é retardar ou diminuir a progressão degenerativa, como condroitina, glicosamina e UC-II. (AGOSTINHO e DUARTE 2010).

Existem diversas técnicas cirúrgicas: osteotomia pélvica tripla, artroplastia de excisão de cabeça e colo femorais, miectomia pectínea, osteotomia intertrocantérica, substituição coxofemoral total, sinfiodese púbica juvenil e desenervação articular (LIMA; GONÇALVES DIAS; PEREIRA; CONCEIÇÃO; ROCHA; HONSHO; DIAS 2015). Algumas delas estão em desuso e podem ser desaconselhadas, e outras são mais indicadas para alguns casos.

Na fisioterapia o tratamento consiste na utilização de diversos recursos com ao intuito de recuperar e conservar a capacidade física, promovendo a analgesia, e qualidade de vida ao paciente. Os recursos mais utilizados são: terapia manual, eletroterapia, laserterapia, magnetoterapia, hidroterapia e cinesioterapia (SILVIA; OLIVEIRA; MELO 2018).

Terapia manual: É uma terapia não invasiva realizada pelo médico veterinário fisioterapeuta que promove analgesia e mobilidade articular, através da mobilização passiva de extensão e flexão de membros por exemplo ou a massoterapia. Por não ser invasiva, não possui muitas contraindicações e tem como função melhor circulação sanguínea, diminuir edemas e aumentar a amplitude de movimentos que são reduzidos pela dor. (SILVIA; OLIVEIRA; MELO 2018).

Eletroterapia: Tem como função por meio de estímulos a analgesia ou fortalecimento muscular, por meio da corrente elétrica. Existem diferentes estímulos dentro da eletroterapia e cada um deles deve ser realizado da forma adequada para a necessidade do paciente.

Dentre os estímulos estão:

NMES- Estimulação elétrica neuromuscular: produz contração muscular com o objetivo de fortalecimento.

TENS- Estimulação elétrica nervosa transcutânea: que promove analgesia inibindo os estímulos de dor com a liberação de endorfinas pelos estímulos elétricos, e bloqueio das comportas da dor.

EMS- Estimulação elétrica muscular: produz a contração muscular com o objetivo de fortalecimento muscular e estimulação nervosa. (SILVIA; OLIVEIRA; MELO 2018).

Laserterapia: Laser é uma abreviação das seguintes palavras: “light amplification by stimulated emission of radiation” ou seja amplificação da luz por emissão estimulada de radiação. A terapia com Laser pode ser chamada de “low lavel laser therapy” (LLLT) ou low intensity laser therapy (LILT), que em português significa terapia com laser de baixa intensidade.

O laser é considerado um biomodulador por regular processos biológicos através da reação dos fótons com os receptores celulares de luz. Com isso, ocorre uma cadeia de reações químicas e fisiológicas que aumentam o ATP (reserva de energia das células). Seus principais efeitos são:

Analgesia: estimula liberação de endorfinas, aumenta produção de oxido nítrico, bloqueia despolarização de fibras nervosas aferentes c, estabiliza potencial de membrana das células nervosas.

Cicatrizante: aumenta ATP e taxa de mitose, estimula fibroblastos e atividade macrofágicas, estimula neovascularização, estimula granulação e epitelização, aumenta nível de fatores de crescimento celular.

Anti-inflamatório: estabiliza membrana celular, aumenta angiogênese, diminui nível de proteína c-reativa, inibe síntese de prostaglandinas inflamatórias e estimula fluxo linfático. (SILVIA; OLIVEIRA; MELO 2018).

Magnetoterapia: É a utilização de campos magnéticos produzidos por corrente elétrica. É uma terapia não invasiva e indolor. É indicado para o tratamento de fraturas, tendinites, lesões de nervo, dores crônicas e agudas, inflamações, ferimentos de SNC, artroses e outras. Os efeitos sobre o organismo são ação direta sobre as células, sobre o tecido ósseo e o colágeno, possui efeito piezoelétrico, e age sobre a musculatura e o plasma, pois melhora a solubilidade do oxigênio. É contraindicado em casos de hemorragias, prenhez, tumores, infecções ativas e em pacientes com marca-passo. (NUNES, 2016)

Cinesioterapia: consiste na utilização de movimentos como forma de tratamento. Possui como finalidade, aumentar a amplitude de movimento, flexibilidade, fortalecimento muscular de maneira geral.  Ela é realizada em exercícios passivos, envolvendo alongamentos, flexão, extensão, movimento de pedalada, entre outros. E exercícios ativos, envolve exercícios de sustentação, caminhada assistida, estímulos à propriocepção, entre outros. (SARTORI E SAMUEL)

Hidroterapia: são exercícios de baixo impacto por serem realizados com o paciente em contato com a água. Essa terapia permite o aumento da força muscular, flexibilidade, mobilidade, equilíbrio, coordenação, manutenção da postura, assim como constitui um bom estímulo sensorial e de propriocepção. A água para a realização dos exercícios é aquecida entre 25 e 35º C para promover a vasodilatação e assim gerar analgesia e relaxamento muscular adequado para a realização dos exercícios. (APPEL E CARAMICO, 2018)

 Conclusão

A displasia coxofemoral é uma doença grave e que promove muita dor ao animal acometido, por não possuir cura, seu tratamento é contínuo e de suma importância. A fisioterapia e acupuntura mostram grande eficácia como tratamento da displasia coxofemoral no controle de dor e promovendo qualidade de vida.

Editado por M. V. Ma. Esp. Mhayara Reusing.

Referências 

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FROES, T.R.; GARCIA, D.A.A.; SCHMIDLIM, P.C.; PARCHEN, H.D.; SOUZA, A.C.R. ESTUDO COMPARATIVO E ANÁLISE INTEROBSERVADOR ENTRE DOIS MÉTODOS DE AVALIAÇÂO DA DISPLASIA COXOFEMORAL DE CÃES. Archives of Veterinary Science, v.14, n.4, p.187-197, 2009.

LIMA, Bruna Bressianini ; DIAS, Fernanda Gosuen Gonçalves; PEREIRA, Lucas de Freitas; CONSEIÇÃO, Maria Eduarda Bastos Andrade; ROCHA, Thiago André Salvitti de Sá; HONSHO, Cristiane dos Santos; DIAS, Luis Gustavo Gosuen Gonçalves. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO CONSERVADOR DA DISPLASIA COXOFEMORAL EM CÃES. Investigação, 14(1):78-82, 2015

NUNES, Daniel Filipe Verissimo; MAGNETOTERAPIA COMO MODALIDADE ADJUVANTE NO MANEIO DE DOR EM REBILITAÇÃO FUNCIONAL. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias; Lisboa 2016.

ROCHA, Fábio Perón Coelho da SILVA, Danilo da BENEDETTE, Marcelo Francischinelli SANTOS, Denise Almeida Nogueira dos COSTA, Eduardo Augusto de Alessandro DISPLASIA COXOFEMORAL EM CÃES REVISTA CIENTÍFICA ELETÔNICA DE MEDICINA VETERINÁRIA – ISSN: 1679-7353. Ano VI – Número 11 – Julho de 2008 – Periódicos Semestral.

SARTORI, M.: SAMUEL, M. M. G. Exercícios terapêuticos. In: LOPES, R. S.: DINIZ, R. Fisiatria em pequenos animais. I. ed. São Paulo: Editora Inteligente, 2018. p. 148-155. ISBN: 978-85-85315-00-9.

Silva GP, Oliveira SAM, Melo NLJ. O USO DA FISIOTERAPIA COMO MÉTODO AUXILIAR NO TRATAMENTO DA DISPLASIA COXOFEMORAL. Anais do 14 Simpósio de TCC e 7 Seminário de IC da Faculdade ICESP. 2018(14); 1485- 1492.

TRAMONTIM, Paula. AVALIAÇÃO CLÍNICA DA EVOLUÇÃO DA CLAUDICAÇÃO EM ANIMAIS QUE PASSARAM POR PROCEDIMENTOS FISIOTERÁPICOS. Tubarão 2018.