Curitiba, 20 de agosto de 2020.

Texto por. M.V. Esp. Flávia do Prado

O termo Bambeira no meio equestre é popularmente utilizado para fazer referência a doença denominada Mieloencefalite Protozoária Equina (MEP). Esta enfermidade é causada pelo protozoário Sarcocystis neurona que pode se alojar por diferentes regiões do sistema nervoso central causando sinais clínicos diversos que vão desde dificuldade para engolir até convulsão. As alterações mais comuns são arrastar a pinça no solo, fraqueza, atrofia muscular, febre, espasmos e incoordenação dos membros. É por este último sinal citado que recebe o nome “Bambeira”.

Figura 1- Cavalo com incoordenação de membros. Fonte: Dubey et al. 2015

Este quadro é bastante prejudicial à qualidade de vida e desempenho de atividades inerentes a vida do animal, podendo se agravar e até levar a óbito. Contudo, apesar da alta incidência da doença, nem todo quadro de incoordenação de membros é ocasionado pelo Sarcocystis neurona. Outras afecções que acometem o sistema nervoso central dos equídeos podem apresentar-se clinicamente como a MEP, e podem ter origem parasitária, bacteriana, viral, má formações da coluna cervical, intoxicação ou trauma. Por esta razão, é indispensável a realização de exames laboratoriais que confirmem o diagnóstico. Após a confirmação do diagnóstico o animal deve receber medicação antiparasitária apropriada, suplementos vitamínicos e anti-inflamatórios. Contudo, mesmo após meses de tratamento, muitos animais permanecem com sequelas. Isso se deve ao fato do tratamento medicamentoso ser eficaz no controle da progressão da doença, mas não na reparação das lesões já ocorridas. É nesta fase que a fisioterapia e outras terapias complementares entram.

A gravidade das doenças com impacto neurológico se deve em parte a dificuldade de reparação do sistema nervoso. É de conhecimento geral que doenças neurológicas podem deixar sequelas irreversíveis. Contudo, a neurofisiologia aponta que os tecidos neurais podem ser modificados e reparados por meio da neuroplasticidade. Em 2011 este termo foi definido por Mary L. Dombovy como mudanças nas redes neurais em resposta a treinamento, reabilitação, farmacoterapia, estimulação elétrica, magnética ou por terapia celular com células tronco. A neuroplasticidade engloba uma série de acontecimentos bioquímicos e celulares, ocorre de modo dinâmico como uma engrenagem ligando o meio ambiente externo sensorial ao ambiente interno celular (Gárcez-Vieira & Suárez-Escudero, 2014). Sendo assim, durante a reabilitação são estabelecidos protocolos que estimulem a neuroplasticidade e reeduquem a função locomotora.

Cavalos com lesões no tronco cerebral e na medula espinhal geralmente apresentam anormalidades na marcha e incoordenação causada pelo envolvimento de tratos ascendentes e descendentes. Estes indivíduos são beneficiados pela implementação de exercícios propioceptivos e uso de bandagens funcionais para reeducação dos membros. Já animais com fraqueza seguida de atrofia muscular decorrente de danos graves na substância cinzenta que inerva os músculos se beneficiarão da estimulação elétrica funcional (FES). Essa modalidade da eletroterapia induz a contração de fibras musculares por meio da estimulação dos motoneurônios, contribuindo deste modo para o ganho de massa muscular e estímulo neurológico periférico. A magnetoterapia também é considerada importante aliada no tratamento de lesões neurológicas por estimular a regeneração neuronal e de vasos sanguíneos.

  

Figura 2- Pulseira Propioceptiva para reeducação da marcha estimulando prolongamento do passo e elevação do membro. A direita equino utilizando a pulseira propioceptiva na altura da quartela dos membros pélvicos Fonte: Arquivo Pessoal.

Quando um animal recebe diagnóstico positivo para uma doença que acomete o sistema nervoso central é sempre motivo de preocupação e atenção. Mas com o auxílio da fisioterapia veterinária e outras técnicas integrativas é possível dar qualidade de vida e reverter quadros que até pouco tempo pareciam impossíveis.

Editado por M.V. Mhayara Reusing.

Referências:

Dubey, J.P. et al. An update on Sarcocystis neurona infections in animals and equine protozoal myeloencephalitis (EPM). Vet. Parasitol. (2015).

Garcés-Vieira MV, Suárez-Escudero JC. Neuroplasticidad: aspectos bioquímicos y neurofisiológicos. Rev CES Med 2014; 28(1): 119-132.

Krueger-Beck E, Scheeren EM, Nogueira Neto GN, No­hama P. Campos elétricos e magnéticos aplicados à regeneração nervosa periférica. Rev Neurocienc 2011;19(2):314-328.