MEU ANIMAL OPEROU, QUAIS AS VANTAGENS DA FISIOTERAPIA NO PÓS-OPERATÓRIO?

Texto por: M.V. Esp. Flávia do Prado

Frequentemente médicos veterinários fisiatras escutam a pergunta: É melhor operar ou fazer fisioterapia?

“Para alguns casos, indica-se a cirurgia, e para todos, a fisioterapia! Fisioterapia e cirurgia andam juntas!”

E a resposta mais frequente é: ambas! Quando há indicação cirúrgica, a fisioterapia não substitui uma intervenção mais invasiva, contudo contribuirá para a melhora do animal de diversas formas. E neste texto serão expostos os principais benefícios.

De modo geral, os procedimentos cirúrgicos tem por objetivo o tratamento ou controle de enfermidades para restabelecer a função, controlar a dor e fornecer melhor qualidade de vida a seres humanos e animais. Para isto demandam modificações nos tecidos do corpo por meio de cortes, implantes e suturas. Considerando isto, é válido relembrar que para os tecidos e órgãos essa manipulação é vista como uma “agressão” e acarreta em produção de substâncias inflamatórias, formação de edema e dor. Considerando isto, entramos no primeiro benefício da fisioterapia pós operatória:

  • AUXÍLIO NO CONTROLE DA DOR

A dor pós cirúrgica é decorrente de uma atuação conjunta de fatores químicos, e sensibilização de vias nervosas que conduzem estímulos dolorosos. Para controlar a dor é fundamental o uso de drogas analgésicas e anti-inflamatórias durante e após a cirurgia. Contudo, sabe-se que o uso de algumas destas drogas por tempo prolongado pode acarretar em prejuízos gastrointestinais e renais. Deste modo, busca-se utilizar esses recursos farmacológicos pelo menor tempo possível.

Outro ponto relevante é que alguns pacientes que já possuem histórico de doenças renais e/ou gastrointestinais, principalmente os geriatras, apresentam restrição ao uso de inúmeros fármacos, o que torna o controle da dor algo extremamente desafiador, mas seguro com auxílio fisiátrico. Pensando nisso existem alguns recursos da fisioterapia que são excelentes aliados no controle da dor como:

  1. Crioterapia
  2. Terapia manual
  3. Eletroterapia
  4. Laserterapia
  5. Magnetoterapia
  6. Bandagens funcionais

Essas técnicas atuam reduzindo a inflamação e espasmo muscular, inibindo a ativação das fibras nociceptivas, melhorando a circulação sanguínea e absorção do edema.

Estudos em animais e seres humanos, comparando grupos que utilizaram recursos fisioterápicos com grupos que não utilizaram, apontam que eles são capazes de reduzir o consumo de medicações analgésicas e prover maior conforto no pós-operatório em diversas situações, desde enfermidades ortopédicas até cesarianas.

O inadequado controle da dor após procedimentos cirúrgicos pode acarretar no desenvolvimento de dor crônica pós-operatória persistente, que além de causar sofrimento ao animal, compromete a qualidade de vida, atrasa a alta médica e pode motivar retornos inesperados ao hospital.

  • ACELERA A CICATRIZAÇÃO DE FERIDAS

A cicatrização é composta por três fases (Broughton, 2006):

  1. Inflamatória: dura entre 4 e 6 dias e como o próprio nome diz é quando observamos sinais mais intensos de inflamação (dor, rubor, edema e calor no local);
  2. Proliferativa: dura de 4 a 14 dias e nesta fase começam a se acumular novas células para formação dos novos tecidos;
  3. Maturação e remodelação: dura de 8 dias a 1 ano. Nesta fase os tecidos se reorganizam e há substituição de tipos celulares temporários por definitivos.

A fisioterapia atua na fase inflamatória, como relatado anteriormente, reduzindo a dor, inflamação e edema. Já nas fases seguintes, atuará estimulando o suprimento sanguíneo, migração e proliferação celular (Riegel & Goldbold, 2017). Entre as modalidades empregadas, se destacam na promoção da cicatrização a laserterapia e a magnetoterapia. Além de haver uma cicatrização mais rápida com essas terapias, observa-se efeitos secundários nos tecidos adjacentes.

  • RETORNO PRECOCE A FUNÇÃO

Um dos principais objetivos da correção cirúrgica é que o órgão e/ou tecido operado retorne a desempenhar sua função. No entanto, após toda a manipulação é necessário um tempo até que seja restabelecida a homeostase/equilíbrio do organismo e seja possível visualizar o resultado final do trabalho realizado.  Observa-se que o adequado controle da dor em conjunto com a formação de tecidos de qualidade possibilita que os animais submetidos ao acompanhamento fisiátrico se recuperem em um período menor. Por exemplo, em 2012 foi publicado um estudo com cães acometidos por doença de disco intervertebral que perderam o movimento dos membros traseiros e passaram por cirurgia. Metade dos pacientes foram tratados com laserterapia após a cirurgia e observou-se que retornaram a locomoção em média de 3 a 5 dias, enquanto que os animais que não receberam o mesmo tratamento demoraram em média 14 dias para obter o mesmo resultado (Draper, 2012). Outro estudo interessante, conduzido no Brasil, relatou que cães submetidos a retirada da cabeça e colo do fêmur que receberam laserterapia no pós-operatório voltaram a apoiar o membro em média em um terço do tempo que o grupo controle (Matera, 2003).

A minimização da perda de massa muscular com uso de estimulação elétrica funcional (FES) e cinesioterapia também contribui para a melhora na recuperação, principalmente após procedimentos ortopédicos (Figura 1). Um estudo publicado em 2019 relatou que cavalos operados de cólica, quando incluídos em um programa de exercícios para fortalecimento da musculatura abdominal no pós-operatório, retornaram aos treinos montados em um período de 6 a 10 semanas, enquanto que animais do grupo controle levaram de 8 a 17 semanas. Uma diferença bastante significativa.

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1- Paciente no pós-operatório realizando cinesioterapia (à esquerda) e recebendo tratamento com bandagem funcional para redução de edema, Fes para fortalecimento da musculatura paravertebral (à direita). Fonte: Arquivo Pessoal

Por fim, vale ressaltar também que o quanto antes o trabalho fisiátrico iniciar melhor para o paciente. Estudos mostram que já é observada diferença significativa entre pacientes que recebem tratamento imediatamente após a cirurgia e um dia após..

Gráfico 1- Comparação da quantidade de analgésicos consumidos entre o grupo tratado com laserterapia imediatamente após intervenção cirúrgica e o grupo que recebeu com atraso de um dia. Fonte: Modificado de Abdel-Alim et al., 2015.

Ainda há muitos estudos e modalidades fisiátricas que poderiam ser abordados neste texto, mas acreditamos que este resumo já é suficiente para provar que a atuação conjunta de cirurgiões e fisiatras pode produzir excelentes resultados com um pós-cirúrgico tranquilo e eficaz para nossos animais de estimação.

Editado por: M.V. Ma. Esp. Mhayara Reusing

Literatura Consultada:

Abdel-Alim, H. M. et al. (2015). A Comparative Study of the Effectiveness of Immediate Versus Delayed Photobiomodulation Therapy in Reducing the Severity of Postoperative Inflammatory Complications. Photomedicine and Laser Surgery, 33(9), 447–451. doi:10.1089/pho.2015.3923

Broughton, G., Janis, J. E., & Attinger, C. E. (2006). The Basic Science of Wound Healing. Plastic and Reconstructive Surgery, 117(SUPPLEMENT), 12S–34S. DOI:10.1097/01.prs.0000225430.42531.c2

Draper, W. E., Schubert, T. A., Clemmons, R. M., & Miles, S. A. (2012). Low-level laser therapy reduces time to ambulation in dogs after hemilaminectomy: a preliminary study. Journal of Small Animal Practice, 53(8), 465–469. doi:10.1111/j.1748-5827.2012.01242.x

Holcombe, S. J., Shearer, T. R., & Valberg, S. J. (2019). The effect of core abdominal muscle rehabilitation exercises on return to training and performance in horses after colic surgery. Journal of Equine Veterinary Science. doi:10.1016/j.jevs.2019.01.001

Hopkins, T. J. et al. (2004) Low‐level laser therapy facilitates superficial wound healing in humans: a triple‐blind, sham‐controlled study. J Ath Train. 39(3):223–229.

Joshi, G. P., & Ogunnaike, B. O. (2005). Consequences of Inadequate Postoperative Pain Relief and Chronic Persistent Postoperative Pain. Anesthesiology Clinics of North America, 23(1), 21–36. doi:10.1016/j.atc.2004.11.013

Kasapoglu, I et al (2020). The efficacy of transcutaneous electrical nerve stimulation therapy in pain control after cesarean section delivery associated with uterine contractions and abdominal incision. Turk J Phys Med Rehab; 66(2):169-175 DOI: 10.5606/tftrd.2020.3225

Matera JM, Tatarunas AC, Oliveira SM (2003). Uso do laser arseneto de gálio (904nm) após excisão artroplástica da cabeça do fêmur em cães. Acta Cir Bras, 18(2).

Pereira, FC et al (2017). Antinociceptive Effects of Low-Level Laser Therapy at 3 and 8j/cm2 in a Rat Model of Postoperative Pain: Possible Role of Endogenous Opioids. Lasers in Surgery and Medicine, 49(9), 844–851. DOI:10.1002/lsm.22696

Riegel RJ, Goldbold Jr. JC. Laser Therapy in Veterinary Medicine.1th ed. Wiley Blackwell; 2017.

Rohde, C. H. et al. (2015). Pulsed Electromagnetic Fields Reduce Postoperative Interleukin-1β, Pain, and Inflammation. Plastic and Reconstructive Surgery, 135(5), 808e–817e. doi:10.1097/prs.0000000000001152

Sluka KA, Deacon M, Stibal A, et al (1999). Spinal blockade of opioid receptors prevents the analgesia produced by TENS in arthritic rats. J Pharmacol Exp Ther; 289(2):840–6

Wu Cl, Raja SN (2011). Treatment  of acute postoperative pain. Lancet, Jun 25;377(9784):2215-25. DOI: 10.1016/S0140-6736(11)60245-6.